GKA Events | GKAEvents

Sign In

O paradigma biomédico e a relação profissional-paciente: significados para o enfrentamento da doença oncológica pediátrica em um estudo narrativo

Identifier

Event

Language

Presentation type

Topic it belongs to

Subtopic it belongs to

Title of the presentation (use both uppercase and lowercase letters)

Presentation abstract

Esse trabalho pretende apresentar reflexões sobre os impactos do hegemônico paradigma técnico/biomédico e como esse apareceu como um dos principais subtemas na interpretação de entrevistas narrativas de uma pesquisa qualitativa utilizando a metodologia “História Oral de Vida”. Esse estudo investigou significados de crianças, mães e profissionais para a experiência de finalizar um tratamento do câncer infantil em Sistema Nervoso Central, em um hospital oncológico pediátrico no Brasil, que priorizou os significados obtidos através do entrecruzamento das narrativas de história de vida de nove colaboradores (três para cada grupo de crianças, mães e profissionais). A relação com o outro como forma de enfrentamento à experiência despontou como temática central e o discurso biomédico mediando tais relações foi um dos principais subtemas emergidos. Apesar da preponderância desse discurso em todas as narrativas e, portanto, uma das maneiras de se dar significado à experiência do tratamento, verificou-se que, para além da importância do protocolo médico, a relação com o outro configurou-se como recurso crucial no alcance da cura, dada a ênfase dos colaboradores ao aspecto humano durante o tratamento. A partir de trechos de duas entrevistas e teorizações da Filosofia da Saúde (como as de Jacqueline Lagrée e Georges Canguilhem), apresentaremos como esse subtema surgiu e foi interpretado na pesquisa e como ele pôde demonstrar impactos do saber tecnocêntrico durante o tratamento. Nesse sentido, levando-se em conta abordagens que considerem as pessoas e não somente o protocolo científico, outros paradigmas como a Medicina Baseada em Narrativas de Rita Charon (2017) e a Medicina Centrada na Pessoa de Stewart et al (2017), podem contribuir sobremaneira para a forma como o tratamento é vivenciado, retomando a singularidade dos envolvidos no processo, que têm ficado em segundo plano no campo da saúde.

Long abstract of your presentation

Em uma pesquisa qualitativa da área da Saúde Coletiva no Brasil, que objetivou compreender significações atribuídas à experiência de se ter a vida marcada pelo câncer infantil em Sistema Nervoso Central (SNC), ao final do tratamento - através do entrecruzamento e interpretação das narrativas obtidas à luz da história oral de vida dos envolvidos nesse processo - a relação com o outro na jornada do tratamento emergiu como principal significado atribuído à experiência tanto pelas crianças, como mães e profissionais. Esses significados foram extraídos através do entrecruzamento das narrativas de nove colaboradores: três crianças que haviam acabado de finalizar seus tratamentos, suas mães e três profissionais envolvidos diretamente com o tratamento do câncer em SNC, em um hospital oncológico pediátrico brasileiro, na cidade de São Paulo, vinculado à Universidade Federal de São Paulo, onde a pesquisa foi realizada e finalizada no ano de 2019. A abordagem metodológica utilizada para a obtenção de tais significados foi a “História Oral de Vida” (MEIHY, HOLANDA, 2011), em que é feita uma entrevista aberta com cada colaborador, pedindo-lhe através de uma única pergunta, que conte sua história de vida. A pesquisa teve o fomento da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), fundação do Ministério da Educação (MEC) e foi aprovada pelo comitê de ética em pesquisa científica da Universidade, sob o número 41229415.1.0000.5505. Todos os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido de acordo com a Resolução CNS n. 466 (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2012), que garante a ética da pesquisa com seres humanos. De acordo com a HOV, ao final do processo, as narrativas são interpretadas, dado que através das suas histórias de vida, posteriormente emergirão os principais temas daquele estudo. Nessa pesquisa, as interpretações foram realizadas de acordo com a Fenomenologia Hermenêutica, com a imersão em profundidade nas narrativas para que nesse mergulho surjam os temas, sem teorias ou ideias pré-concebidas. Nesse momento, a relação com o outro figurou como temática principal, dando assim significado à experiência do final do tratamento oncológico em SNC. No entanto, apesar da relação ter sido o principal tema despontado, chamou nossa atenção o fato de que em todas as narrativas - inclusive na das crianças entrevistadas (08, 09 e 14 anos) - termos e expressões técnicas, próprios do discurso biomédico foram preponderantes e, durante toda pesquisa, utilizados em grande medida por todos os colaboradores. Essa eleição por tal léxico fez com que considerássemos o discurso técnico/biomédico e seu uso, como uma das formas com que a experiência é enfrentada - e, portanto, como as relações se dão - conforme percebemos na narrativa de uma mãe sobre uma explicação médica e posteriormente o mesmo procedimento tendo sido narrado por sua filha para significar um dos momentos do tratamento:

 

Ela precisou colocar a válvula em Novembro do ano passado. Depois de quase um ano de tratamento, ela ficou com visão dupla. O tumor estava oprimindo o ventrículo dela e não estava deixando o líquor passar e então, ela estava vendo tudo em dois. (...) Ela foi falando aquilo e comentei com os médicos: ‘A Ellen está falando que está vendo dois!’. Eles pediram um exame, que ela fez no mesmo dia. E eles me explicaram que ela estava com visão dupla, falaram de terceiro ventrículo, uns nomes estranhos. E eles colocaram a válvula na mesma semana.” (Thaís, mãe da Ellen)

 

“Eu já fiz cinco cirurgias! Eu não lembro direito, mas eu já coloquei duas válvulas, eu já fiz a biópsia, já fiz a cirurgia do Port, do PIC, que o PIC é aqui, fica assim debaixo da blusa e a válvula é assim, um caninho que vem até a barriga. Vou mostrar!” (Ellen, 9 anos)

 

Assim, “através de nomes estranhos” e “um caninho que vem até a barriga”, percebemos que esse discurso oferece um saber importante sobre a experiência de uma neurocirurgia. No entanto, é importante considerar os impactos desse saber. De acordo com Lagrée (2002) há um “perigo ético, ao qual devemos estar atentos”. Esse se configura como o saber pelo saber. Para a autora, ele “não deve prevalecer sobre a lógica do tratamento que é a finalidade primeira e última da medicina” (p. 21). Neste paradigma há o perigo da instrumentalização do corpo humano e da desconsideração da lógica do tratamento. Assim, a autora chama atenção para o “soberano poder técnico científico” (LAGRÉE, 2002, p. 48) e com isso, retoma que a ciência ou a biomedicina organizaram seu direito “em detrimento da visão humanista da pessoa humana, transformada em objecto de experimentação da medicina em que a vontade de saber predomina sobre a vontade de curar e a vontade da sociedade” (LAGRÉE, 2002, p. 21). Nesse sentido, também estão as ideias de Canguilhem (2011). Para ele, a doença não é um ente objetivo, também há um sujeito, uma vida e um processo relacionado ao adoecimento. Baronio e Pecora (2015) ao estudarem a relação de cuidado entre médico e paciente durante a internação hospitalar, demonstraram que a relação de cuidado é tão importante quanto o paradigma biomédico para o tratamento.

Assim, em um contexto que é preciso considerar a subjetividade do paciente, há muito desconsidera por modelos que preconizam a evidência cientifica e acachapam o sujeito e sua narrativa, destacamos a importância de outros modelos científicos que levem em conta as singularidades no processo do adoecimento. Perspectivas como a Medicina Baseada em Narrativas (MBN), de Rita Charon et al. (2017) são estratégicas que caminham nesse sentido, pois priorizam a narrativa do paciente e o que ele tem a dizer sobre o adoecimento, para além da evidência científica sobre a doença. A MBN é um modelo de cuidado que ajuda pacientes e profissionais de saúde a comunicarem histórias complexas e singulares da doença, transpondo um modelo de cuidado biomédico. Seu método seria então, a escuta atenta ao compartilhar de experiências do paciente. Outro modelo que caminha nessa direção é a Medicina Centrada na Pessoa (MCP) (STEWART et al, 2017). Nesse modelo, há uma proposta de cuidado que retoma linhas de pensamento como os trabalhos de Carl Rogers sobre aconselhamento centrado no cliente e de Michael Balint, que cunha efetivamente o termo MCP. Além disso, ela incorpora aspectos da MBN e pressupõe várias mudanças na mentalidade do médico: “Primeiramente, a noção hierárquica de que o profissional está no comando e de que a pessoa que busca cuidado é passiva não se sustenta nessa abordagem”. Ao ser centrada na pessoa, é preciso dar poder à pessoa ou mesmo compartilhar o poder na relação, “o que significa renunciar ao controle que tradicionalmente fica nas mãos dele [profissional]” ((STEWART, 2017, p. 17).

Desta feita, ao considerarmos a relação como recurso para enfrentar a experiência como um todo e chegar ao término do tratamento com vida, abordagens que levem em conta o outro em sua singularidade no processo de estabelecimento de vínculos de confiança, para além do modelo biomédico - como a MBN e a MCP - podem também contribuir no processo para a retomada do aspecto humano no tratamento. Com isso, também está se propondo a recuperação do aspecto subjetivo que na área da saúde tem ficado em segundo plano (PALMEIRA, GEWEHR, 2018). 

Nesse sentido, para além da indiscutível importância do protocolo médico para o sucesso do tratamento, modelos que priorizam o aspecto humano e as relações entre os envolvidos no tratamento surgem como recurso crucial no alcance da cura.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BARONIO, M.; PECORA, A. R. A relação de cuidado na perspectiva de médicos e pacientes durante a internação em hospital-escola. Psic Rev, São Paulo, v. 24, n. 2, p. 199-228, 2015. Disponível em: https://revistas.pucsp.br/index.php/psicorevista/article/view/27796. Acesso em: 01.Jul.2019

CANGUILHEM, G. O normal e o patológico. 7. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2011

CHARON, Rita et al. The Principles and Practice of Narrative Medicine. Oxford: New York, 2017

LAGRÉE, J. O médico, o doente e o filósofo. Tradução de Germano Cleto. Coimbra: Gráfica de Coimbra, 2002

MEIHY, J. C. S. B. e HOLANDA, F. História Oral: como fazer, como pensar. São Paulo: Contexto, 2011

MINISTÉRIO DA SAÚDE (BR), CNS. Resolução n. 466, de 12 de dezembro de 2012. Dispõe sobre diretrizes e normas regulamentadoras de pesquisa envolvendo seres humanos. CNS: República Federativa do Brasil. 2012 de Dez. 12. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/cns/2013/res0466_12_12_2012.html

Acesso em 10.Jan.2018

PALMEIRA, A. B. P.; GEWEHR, R. B. O lugar da experiência do adoecimento no entendimento da doença: discurso médico e subjetividade. Ciênc. saúde coletiva, v. 23, n. 8, p. 2469-2478, 2018. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/csc/v23n8/1413-8123-csc-23-08-2469.pdf. Acesso em: 01.Jul.2019

STEWART et. al. Medicina Centrada a Pessoa: transformando o Método Clínico. São Paulo: Artmed, 2017. 3ª Ed.

Keywords (use both uppercase and lowercase letters)

Main author information

Clarissa Carvalho Fongaro Nars (Brazil) 6594
Scientific production

Co-authors information

Dante Marcello Claramonte Gallian (Brazil) 6506
Scientific production

Status:

Approved