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A Medicina em interface com a Literatura

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A medicina sempre foi entendida também como arte, mas nos últimos tempos, tem se afastado da arte e se instrumentalizado de modo a parecer uma ciência puramente técnica. Esforços têm sido feitos para criar pontes, que religuem a ciência à arte; entre elas a literatura e as narrativas. Objetivo: inserir a literatura, especialmente, as narrativas, para refletir sobre a anamnese e as relações médico-paciente, durante a pandemia. Relato da Experiência: Na ausência de aulas presenciais em 2020.1, o colegiado de Medicina da Universidade do Estado da Bahia, incentivou a oferta de cursos de extensão à distância na plataforma Teams. O curso foi montado por duas professoras dos cursos de Medicina e uma do curso de Letras, com 10 encontros semanais, de 90 minutos cada, no formato de roda de conversa. Ao final do curso, os participantes, divididos em pequenos grupos, prepararam um e-poster e um artigo sobre um dos temas. Foram escolhidos 09 contos para abordagem dos temas: estrutura das narrativas orais, escuta, doença como metáfora, o paciente no hospital e no consultório, o óbito, médico como paciente, bastidores da anatomia e despersonalização do paciente. Reflexão sobre a Experiência: 24 participantes efetivos no curso apresentaram 09 textos e e-posters. Ao término do curso, avaliamos que o objetivo foi atingido com um impacto positivo sobre a prática acadêmica. Percebemos que sentimentos de encanto e de surpresa permearam as discussões, e que os temas e a forma de abordagem estimularam a reflexão. Apresentar o trabalho em formato de e-poster e preparar o artigo foi bastante dinâmico e propiciou o entrosamento do grupo para além dos encontros formais. Pudemos perceber que discussões sobre a prática médica, sob a ótica da literatura, amplia o olhar do indivíduo, e a interação entre Letras e Medicina contribui para a formação humanística

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Introdução:

Do ponto de vista das ciências exatas e biológicas, somos todos feitos de células e átomos, mas, do ponto de vista da Literatura, somos feitos de histórias, como nos diz Mia Couto1: histórias simples, complexas, alegres, tristes ou incompletas. Assim, para além do DNA que especifica cada corpo, as narrativas dos pacientes que adentram em nossos consultórios nos revelam aquilo que é específico de cada sujeito. Desviam nosso olhar e nossa escuta para o caminho percorrido por alguém; seu ponto de partida, suas angústias e, finalmente, sua chegada ao consultório onde tecerá outras narrativas, deveria se configurar como o ponto de partida mais importante na prática da medicina, pois, ao ouvirmos a história do paciente, entramos em conexão com ele, com seu mundo, seus medos, seu imaginário. É nesse momento que o vínculo médico-paciente se estabelece e, assim, damos a possibilidade de que o outro se expresse e nos comunique suas dores ou sintomas, ou seja, uma linguagem que será traduzida em outra linguagem.

Assim, entendemos que trabalhar com as narrativas orais do paciente, na medicina, a partir de uma perspectiva literária é de fundamental importância na formação de um profissional médico que visa compreender a estrutura e o sentido deste discurso de modo a ser mais empático e consciente da humanidade do outro e de sua própria, haja vista que estudos nos revelam que a linguagem, especialmente a narrativa, é o ponto de partida para o fortalecimento da relação médico paciente2.  Vejamos:

“A linguagem é, pelo menos na maior parte dos casos, o lance inicial no esforço de se estabelecer contato na prática médica” (CHARON, 2015)3

 

Essa linguagem ouvida será transcrita, traduzida em termos técnicos pelo médico e em termos pessoais pelo paciente. E nesse espaço entre o que é ouvido e dito, se estabelece a distância maior ou menor, que permeará no encontro na dependência da sensibilidade e da capacidade de registro e compreensão do que foi dito de ambas as partes. Ao recorrer à literatura, como um dos esteios da formação médica, o docente traz à tona a tolerância presente na arte, a capacidade de não se limitar, de ampliar e respeitar as diferenças4. A literatura nos apresenta os personagens, suas doenças, suas angústias, e através dessa abordagem, desse processo de imaginação, nos faz tomar parte na história do outro, nos faz “viver” a vida do personagem, nos faz refletir sobre o outro...e essa é uma das características fundamentais na medicina: ouvir o outro, compreender o contexto, a dor. A literatura pode preparar o médico a exercer melhor sua profissão, a ser uma pessoa melhor5.

A medicina é vista como ciência e arte, mas nos últimos tempos se afastou da arte ao cultivar sua vertente técnica. Esforços têm sido feitos a fim de criar pontes, que liguem novamente a ciência à arte, e uma dessas pontes é a literatura6. Outra são as narrativas, que compõem a rotina médica: narrativas escritas e orais, narrativas dos pacientes apropriadas pelos médicos e traduzidas em linguagem técnica7. Se não houver consciência dessa apropriação, e desse poder médico, a história do paciente deixa de ser dele, ele deixa de ser gente e passa a ser o caso clínico; passa a ser objeto de estudo e perde a voz e a identidade. Ao trazer a reflexão sobre a importância das narrativas e da literatura na formação médica, pode-se retirar esse véu que separa médico e paciente, e diminuir a distância entre esses indivíduos no encontro clínico. A importância não fica centrada no médico, mas na história que contém o médico e o paciente em um espaço outro de relação, alternativo e horizontalizado.

 

Objetivos:

1.       Geral

Discutir a importância e a inserção da literatura, especialmente, as narrativas na formação médica

2.       Específicos

Trabalhar a escuta sensível na relação interpessoal

Fazer uma ponte entre o texto literário e o texto médico

Aprofundar as possibilidades de melhoria da relação médico paciente

Metodologia:

Este projeto de extensão foi estruturado em encontros semanais de 90 min, na plataforma online gratuita Teams da Microsoft. Ele foi projetado por conta da suspensão das aulas presenciais na Universidade do Estado da Bahia, no início da pandemia do Covid-19, como uma possibilidade de ampliar o ensino da medicina para além da técnica. Envolveu os discentes de medicina e letras.

Os encontros foram semanais, com duração de 90 minutos, e foram oferecidas 30 vagas, no período de 28/05 a 13/08/2020, aulas iniciando em 04/06. Total de 15 horas de curso presencial, mais 15 horas de preparo em casa, resultando em um curso de 30 horas.

O material de estudo foidisponibilizado previamente aos encontros. Durante o telepresencial, foi utilizada a metodologia de roda de conversa para a discussão e reflexão sobre o tema.

As discussões foram mediadas por duas professoras do curso de Medicina e uma professora do curso de Letras da UNEB.

Ao final do curso, os participantes entregaram um texto reflexivo sobre um dos assuntos discutidos no período, demonstrando a capacidade de locução entre os dois campos de saber: saúde e literatura. E apresentaram um e-poster.

Os assuntos abordados durante o curso esão listados abaixo e para cada tema, foram selecionados textos na literatura clássica e/ou contemporânea.

Escuta-Dores – 

Exercício de escuta e escrita – 

A doença como metáfora + estrutura oral –  (Susan Sontag)

O Paciente no consultório - (Mia Couto – O menino que escrevia versos)

Paciente no hospital – (Mia Couto: O coração do menino, e o menino do coração)

A descrição e narrativa do óbito – (Dalton Trevisan- Uma vela para Dario)

Médico como paciente - (Drauzio Varela: O médico doente)

Bastidores da anatomia – ( Rubem Fonseca:225 gramas e o artigo Corporalidades e afetos: Lições de Anatomia: o teatro do corpo abjeto na literatura e nas artes plásticas)

Despersonalização do paciente e de sua história – (Graciliano Ramos: Paulo)

Apresentação 1 dos trabalhos finais 

Apresentação 2 dos trabalhos finais 

Bibliografia complementar sugerida:

Bandeira, Manuel. Libertinagem & Estrela da Manhã. 16.ed. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 2000.

Cem melhores contos do século. Italo Maricone (Org.). Ed. Objetiva, São Paulo, 2001

Cem melhores poemas do século. Italo Maricone (Org.). Ed. Objetiva, São Paulo, 2001

Fonseca, Rubem. Contos reunidos. Ed. Cia das Letras, São Paulo, 2000.

Le Breton, Andre. ANTROPOLOGIA DO CORPO E MODERNIDADE D. Petrópolis: Editora Vozes; 2011.

MONTENEGRO, Túlio Hostílio. Tuberculose e literatura. Rio, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 1949.

Santaella, Lúcia. Corpo e comunicação. Editora Paulus, São Paulo, 2004.

Sontag, Susan. A doença como metáfora. Ed. Paz e Terra, 2000, 108p.

Resultados:

Envolvimento dos estudantes de medicina, e letras, em uma reflexão sobre a prática médica, sob a ótica da literatura e contribuir para a formação humanística dos profissionais.

O grupo produziu um material de síntese e reflexão ao final do curso, que foi publicado em uma revista de educação e saúde.

Para a apresentação do trabalho no formato de pôster virtual, foram usados dois dias, onde os participantes tiveram 05 minutos para apresentar e 10 minutos para comentários.

 Para o trabalho escrito, foi orientado que contivesse entre 1.000-1.500palavras, e foi entregue no dia da apresentação do e-poster.

b)   Os participantes foram divididos em 09 grupos, e escolheram um dos temas apresentados para tecer um texto que relacionesse o assunto, a literatura e as suas reflexões sobre a medicina, sua prática, seu ensino. 

c)       Cada texto foi avaliado pelas 03 professoras seguindo um barema de avaliação, onde foi analisado: coerência, profundidade, caráter reflexivo pessoal e capacidade de relacionar os campos de saber.

d)      Após análise e correção, os 09 textos foram enviados para publicação na RIES (Revista Internacional de Educação e Saúde), em número suplementar.

Referências:

1.       Vargas,T. "“Somos feitos de histórias, assim como somos feitos de células”, defende Mia Couto" Informe ENSP, 2015.

http://www.ensp.fiocruz.br/portal-ensp/informe/site/materia/detalhe/38630

2.       Schleifer R, Vannatta JB. Literature and Medicine: A Practical and Pedagogical Guide. Ed. Palgrave Macmillan, pp311, 2019. https://doi.org/10.1007/978-3-030-19128-3

3.       Charon, R. O Corpo que se Conta: por que a medicina e as histórias precisam uma da outra. Ed. LetraeVoz, 75p, 2015.

4.       Frye, N. A Imaginação Educada. Ed. VideEditorial, pp 134, 2017.

5.       Mallet, ANR. Literatura e medicina: uma experiência de ensino. Ed. Livros Ilimitados, 180p, 2014.

6.        Ariyarathna PASA, Ariyasinghe DAG. Integrating Literature into Medical Education. Proceeding of the International Research Conference, Uva Wellassa University, Badulla 90000, Sri Lanka, February 7-9, 2019.

7.       Carelli FB, Pompilio CE. O silêncio dos inocentes: por um estudo narrativo da prática médica. Interface COMUNICAÇÃO  SAÚDE  EDUCAÇÃO, v.17, n.46, p.677-81, jul./set. 2013.


Keywords (use both uppercase and lowercase letters)

Main author information

Ieda Aleluia (Brazil) 6545
Scientific production

Co-authors information

Maristela Sestelo (Brazil) 6548
Scientific production
Nelma Aronia Santos (Brazil) 6549
Scientific production

Status:

Approved